A Inefável Generosidade de Deus

Ninguém deve nem sequer imaginar que a renúncia de Jesus em usar sua ilimitada autoridade (Mt 28.18) e seus extraordinários recursos em favor da liberdade e da vida foi algo suportável e fácil, à vista de sua dupla natureza (humana e divina). Naquele dia sombrio (as trevas cobriram toda a terra do meio dia às três horas da tarde), Jesus deixou-se prender (ele foi amarrado, algemado) e deixou-se matar (ele foi espancado, esbofeteado, açoitado, ferido e crucificado). Jesus não foi anestesiado antes de ser desprezado e rejeitado pelos homens, atingido e afligido por Deus (como representante do homem pecador), traspassado e esmagado por causa de nossas iniqüidades, e finalmente levado para o matadouro e eliminado da terra dos viventes (Is 53). 

Durante os seus trinta e poucos anos de permanência no tempo e na história e na companhia dos homens (Jo 1.14), em nenhum momento Jesus abriu mão de sua divindade nem de sua humanidade. Na madrugada daquela sexta-feira no Getsêmani, Jesus começou a entristecer-se e angustiar-se e desabafou com seus discípulos: “A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal” (Mt 26.38). Ele chegou a desejar o afastamento do cálice de sofrimento e morte, na famosa oração três vezes feita com o rosto em terra: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero [neste momento], mas sim como tu queres” (Mt 26.39). 

A prisão e a morte de Jesus Cristo não foram encenações teatrais, mas experiências vividas. Os dois infortúnios atingiram aquele corpo gerado pelo Espírito Santo no ventre de uma mulher virgem, que quase foi morto por Herodes ao nascer e que então morreu por sua espontânea vontade. É por isso que os celebrantes da Santa Ceia repetiu sempre: “Isto é o meu corpo, que é dado em favor de vocês” (1Co 11.24). Paulo deixa bem claro que a reconciliação entre Deus e os homens foi feita “por meio da morte do seu próprio corpo humano na cruz” (Cl 1.22, BV). Porque Jesus é “imprendível” e “imatável”, mas deixou-se prender e matar em benefício da nossa plena redenção, “agradeçamos a Deus o presente que ele nos dá [o próprio e único filho], um presente que palavras não podem descrever” (2 Co 9.15, NTLH)! page28image384

Nem Tudo é Sexta-feira – Ed. Ultimato

Páscoa

Os cristãos não podem abrir mão do Jesus sofredor nem do Jesus glorioso. Têm de olhar para o passado e enxergar a cruz e olhar para o futuro e enxergar a coroa. As duas estão sempre juntas; não no tempo, mas na história da salvação.

A Santa Ceia provoca a lembrança do Jesus do primeiro evento (o desfigurado) e do Jesus do segundo evento (o transfigurado). O primeiro nos dá a certeza de que o problema do pecado já está resolvido. O segundo nos dá a esperança da glória transbordante. A cruz abre caminho para a justificação; a coroa, para a glorificação.

Não podemos descartar nem a cruz nem a coroa; nem a desfiguração nem a transfiguração; nem as vestes tintas de sangue nem as vestes brancas como a luz; nem a descida aos infernos nem a subida aos mais altos céus; nem a Paixão nem a Páscoa; nem a humilhação nem a exaltação. Na sexta-feira, Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). No domingo, ele é o Leão da tribo de Judá (Ap 5.5).

– Nem tudo é sexta-feira – Ed. Ultimato


Nem Tudo é Sexta-Feira…

Na sexta-feira, Jesus…
Assume a culpa de tudo
dá a sua vida pelas ovelhas
derrama a sua alma na morte
morre por decisão própria

No domingo, Jesus…
deixa o túmulo vazio
Enxuga as lágrimas de Maria
Surpreende a todos
come com os discípulos

Por causa da sexta-feira e do domingo,
os cristãos não podem abrir mão…

Nem do Cordeiro nem do leão
Nem da morte nem da ressurreição
Nem da Paixão nem da Páscoa
Nem da cruz nem da coroa
Nem do Jesus desfigurado nem do Jesus transfigurado
Nem das vestes tintas de sangue nem das vestes brancas como a luz
Nem da descida aos infernos nem da subida aos mais altos céus.


“Nem tudo é sexta-feira” – Ed. Ultimato